Cachoeira das Andorinhas e Serra Dourada – Goiás

A vista panorâmica no Mirante da Serra Dourada

No domingo de Páscoa (21), optamos por um roteiro pelos atrativos ecológicos de Goiás. O dia foi marcado por outras celebrações populares, como a Malhação do Judas pela manhã e o início dos festejos pela Folia do Divino Espírito Santo – algo “mágico” que eu já pude presenciar também, em 2018, em Pirenópolis, quando assisti às Cavalhadas e à principal festa do Divino (veja aqui e nesse outro link do blog meus relatos). Mas como era nosso último dia na cidade decidimos conhecer a Cachoeira das Andorinhas pela manhã e a Serra Dourada à tarde.

Conforme havia comentado no post anterior, sobre a História e arquitetura de Goiás, a Cachoeira das Andorinhas fica muito próxima de onde nos hospedamos, no Hotel Fazenda Manduzanzan. Para chegar à cachoeira do hotel, basta caminhar por uma trilha fácil de apenas 800 metros. Uma funcionária nos mostrou o portão que marcava o começo da trilha, quase ao lado do local onde estão as vacas e cavalos da fazenda. A entrada para a Cachoeira das Andorinhas custa R$ 20,00, mas os hóspedes do hotel não pagam a entrada.

A Cachoeira das Andorinhas fica a seis quilômetros da Cidade de Goiás e, apesar de ter só 9 metros de altura, apresenta rara beleza e um ambiente único para relaxar em meio a rochas de arenito e restos de pedra-sabão. A cachoeira recebe esse nome porque as formações rochosas abrigam andorinhas quando de sua permanência no hemisfério sul. Ao entardecer, é possível vê-las sobrevoando o local, onde constroem ninhos nas pedras no topo da cachoeira. Nós fomos pela manhã, porém, e assim eu não consegui testemunhar esse espetáculo da natureza. Chegamos à cachoeira por volta das 10h e retornamos ao hotel à uma hora da tarde.

O local é deslumbrante, com mata ciliar típica das grotas que descem dos morros. A água é pura e convidativa ao mergulho, já que não é gelada como em outras cachoeiras que já frequentei no Estado de Goiás (Chapada dos Veadeiros e Pirenópolis). O espaço é pequeno, com poços e peixes pequenos. Logo atrás da cachoeira, há uma pequena caverna, onde há uma excelente queda d’agua e uma profundidade para nadar de mais de 7 metros. Uma delícia. Saí de lá revigorada. É bom avisar que não há banheiros ou infraestrutura no local, como placas de sinalização, bebedouros ou algum quiosque para venda de comes e bebes. Portanto, programe-se de modo adequado, com antecedência, ou leve um lanche e recolha seu lixo – aliás, o local é muito bem conservado e limpo.

O cerrado rupestre da Serra Dourada

Às 13h retornamos rapidamente ao hotel, pois a essa hora, um guia veio nos buscar para um passeio pela Serra Dourada. O guia era o Orley, muito atencioso, simpático e experiente, que orienta turistas ávidos em conhecerem os encantos naturais de Goiás, em roteiros primorosos com o que há de melhor no ecoturismo e turismo de aventura na região. Ele nos disponibilizou água mineral, sucos e refrigerantes. O passeio que fizemos foi mais básico, com duração de três horas, até porque não gosto de me enveredar por trilhas muito longas ou complicadas e eu queria ter tempo de chegar cedo ao hotel para descansar à noite no hotel, mas o Orley oferece variadas opções, como trekking, montanhismo, canoagem e cicloturismo. Com toda a infraestrutura necessária, ele guia também grupos que fazem camping e pernoitam por um ou dois dias na Serra Dourada – nos contou que já fizeram até um jantar com vinhos e comida caipira típica de Goiás em meio à natureza exuberante do topo da serra. O WhatsApp dele é (62) 9238-5195 e o tour custou R$ 200,00 por pessoa. Você não usa carro próprio para ir até a Serra Dourada, embarcando em um veículo especial dele, em ótimas condições, com tração nas quatro rodas (vulgo “4×4”), já que carros convencionais, baixos, não dão conta de subir o terreno da Serra Dourada.

Valeu a pena conhecer a Serra Dourada, um dos principais divisores e dispersores de águas da região central do Brasil e uma das mais antigas formações rochosas do planeta, datando do período pré-cambriano (cerca de 70 milhões de anos). Com altitude de 1,1 mil metros, o cume da serra está sediado no Parque Estadual da Serra Dourada, que fica no município de Mossâmedes, distante a 37 quilômetros da Cidade de Goiás (do nosso hotel até a serra a viagem durou 1h30). O local da serra é área de proteção ambiental e parte do parque é reserva da Universidade Federal de Goiás. Os alunos desta instituição são privilegiados, pois ficam hospedados em uma casa com uma vista incrível de toda a paisagem, onde funciona a vigilância da área e trabalham dois guardas, um em período diurno e outro, noturno. Graduandos em cursos diversos, como biologia, ali se hospedam para a pesquisa em campo de plantas nativas, inclusive com propriedade medicinal, como a arnica.

Chegamos, o carro ficou estacionado em frente a um portão, onde um guarda nos esperou adentramos essa casa, onde pude usar o banheiro antes de iniciar a caminhada, que durou 30 minutos até o mirante (cume) da Serra Dourada. Mas antes de estacionarmos, ainda no trajeto de carro, deu para se maravilhar com o bioma do cerrado rupestre, com rochas de arenito que formam os bolsões de água dos reservatórios situados abaixo da terra. No trajeto de carro é possível ver várias formações de cerrado: árvores primárias, mata de cerradão (com árvores altas de até 25 metros), cerrado de campo sujo, com árvores menores, e o campo limpo, uma formação predominantemente herbácea, com raros arbustos e ausência completa de árvores. As imediações dessa casa com hospedaria universitária é tomada por escorpiões venenosos, besouros e lacraias (recolhidos pelos guardas e armazenados em vidros, como eles me mostraram) – os guardas criam galinhas no local, por elas se alimentarem desses insetos peçonhentos e assim evitarem sua proliferação.

Uma vez no parque, as trilhas são planas, de nível médio a fácil (pelo menos essa foi minha impressão) e levam a interessantes conjuntos de formações rochosas (a chamada cidade de pedra), cercadas por milhares de espécies típicas e raras do ambiente do cerrado – algumas das quais eu nunca tinha visto ou prestado atenção anteriormente. A exposição à ação dos ventos e das chuvas produziu, ao longo de milhões de anos, esculturas nas rochas, uma mais bela do que a outra. Uma famosa é em formato de coelho.

Em meio à cidade de pedra pude contemplar soberbas paisagens. Chama a atenção uma planta que só é encontrada no bioma do Estado de Goiás, em cerrado alto, a mais de mil metros de altitude: a Papyrus (Pau Papel), cujo nome é em referência a sua aparência de papel papiro. Vi também árvore de pequi, esse fruto amado por goianos e muitos brasilienses, tão presente nas receitas da culinária goiana e a delicada chuveirinho.

Papyrus (Pau Papel), encontrada apenas em região de cerrado alto
Chuveirinho
Arnica
Árvore de Pequi
Só surpresas encantadoras no percurso

O ponto alto da trilha é o Mirante da Serra, justamente o ponto mais alto, com 1,1 metros de altitude. Desnecessário dizer que a vista é incrível e as fotos falam por si, mais do que as palavras. O guia nos contos que águias do Chile, quando no Brasil, sobrevoam o mirante.

A próxima etapa do tour seria o Vale das Areias, cujo areal colorido serviu como matéria-prima para os quadros da artista plástica Goiandira do Couto, prima da poeta Cora Coralina. Não fomos até o Vale das Areias porque ficaria muito tarde: seria mais 45 minutos para ir, 45 para retornar e meia hora novamente para sair da Serra Dourada. Em uma próxima visita a serra, no futuro, pretendo fazer uma trilha mais completa, com opção de sete ou oito horas de duração, pela manhã e à tarde, que também é oferecida pelo Orley. Assim é possível contemplar toda a beleza da Serra Dourada.

Então, ficamos quase meia hora no mirante, embevecidos com a visão panorâmica, e nos deparamos os líquens nas pedras, formados em locais onde o ar é puro, a exemplo da Serra Dourada. Na volta, passamos em uma pequena caverna que abriga morcegos e, de carro, avistamos abutres típicos da região e uma atmosfera rural, com o gado pastando.

“Está cheio de morcego aqui”

O que posso dizer é que foi tudo perfeito. O guia Orley nos proporcionou um excelente passeio até a serra dourada, mostrando-se conhecedor de todos os aspectos sobre a história e a natureza da região (o meu relato é fruto das anotações que fiz acerca de tudo o que ele explicava). Eu recomendo enfaticamente uma visita a esse esplêndido cenário, a um dos biomas mais conhecidos do Brasil.

E uma última foto do Mirante da Serra:

Carpe Diem

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