Cemitério da Consolação: Um Verdadeiro Museu a Céu Aberto em São Paulo

 

Em setembro de 2022, durante minha visita a São Paulo para celebrar meu aniversário, aproveitei a ocasião para conhecer novamente um dos locais históricos mais fascinantes da cidade: o Cemitério da Consolação. Fundado em 1858 no bairro de Higienópolis, esse cemitério é um verdadeiro museu a céu aberto, repleto de esculturas impressionantes, mausoléus imponentes e jazigos artísticos de renomados escultores brasileiros e europeus.

Dessa vez, tive o privilégio de participar de um tour guiado de 2h30, conduzido pelo experiente Francivaldo Almeida Gomes, que há mais de 22 anos compartilha com os visitantes a história e a arte tumular desse local. Para quem deseja conhecer o cemitério com mais profundidade, basta entrar em contato pelo e-mail assessoriadeimprensa@prefeitura.sp.gov.br 

A Importância Histórica do Cemitério da Consolação

Com uma área de 76 mil metros quadrados e mais de 8,5 mil túmulos, sendo cerca de 300 de grande relevância histórica e artística, o Cemitério da Consolação desempenha um papel fundamental na preservação da história de São Paulo. Foi a partir de sua inauguração, em 1858, que os sepultamentos passaram a ocorrer em cemitérios públicos, decretando o fim dos enterros no interior das igrejas.

Inicialmente, os primeiros sepultamentos incluíram escravos e pessoas de classes menos favorecidas. No entanto, ao longo do tempo, o cemitério passou a abrigar túmulos de figuras influentes da sociedade paulistana.

Arquitetura e Arte no Cemitério da Consolação

O cemitério é reconhecido não apenas por sua história, mas também por sua rica arquitetura. O arco de entrada, projetado em 1902 pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, é um dos elementos marcantes do local. Ramos de Azevedo também projetou a capela do cemitério, que apresenta um estilo dórico impressionante.

Diversos escultores renomados, como Victor Brecheret, Antelo Del Debbio e Rafael Galvez, deixaram sua marca em jazigos e mausoléus espalhados pelo cemitério. O monumento “O Sepultamento”, de Victor Brecheret, é um dos grandes destaques, representando uma Pietà estilizada.

Personalidades Enterradas no Cemitério da Consolação

Muitas figuras históricas do Brasil estão sepultadas no Cemitério da Consolação, tornando-o um local de grande interesse para pesquisadores e admiradores da história.

Marquesa de Santos e sua Importância

A Marquesa de Santos, Domitila de Castro Canto e Mello (1797-1867), é uma das figuras mais emblemáticas enterradas no cemitério. Conhecida por sua relação com Dom Pedro I, ela também teve um papel essencial na história do local ao doar terras e recursos para a construção da capela. Seu jazigo, esculpido em mármore de Carrara, é adornado por um anjo e se destaca entre os monumentos tumulares.

Luiz Gama: O Abolicionista que Mudou o Brasil

Outro grande nome presente no Cemitério da Consolação é Luiz Gama, abolicionista e advogado autodidata. Filho de uma escrava africana e de um fidalgo português, Luiz Gama conquistou a própria liberdade e dedicou sua vida à luta contra a escravidão. Seu túmulo traz uma cruz com rosas, símbolo de pureza na arte cemiterial.

Monteiro Lobato e sua Contribuição Cultural

O escritor Monteiro Lobato, criador do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, também está enterrado no Cemitério da Consolação. Sua obra influenciou gerações e seu túmulo se tornou um ponto de visitação para fãs da literatura infantil.

Libero Badaró: Defensor dos Sepultamentos em Necrópoles

O jazigo de Giovanni Battista Libero Badaró destaca-se no Cemitério da Consolação. Médico e jornalista, nasceu na Itália (1798) e faleceu em São Paulo (1830). Badaró defendeu o fim dos sepultamentos em igrejas, por considerar essa prática nociva à saúde pública, promovendo a adoção de cemitérios públicos. Formado em medicina pelas Universidades de Turim e Pavia, mudou-se para o Brasil em 1826, onde se naturalizou e se tornou uma voz influente nos debates políticos e sanitários.

Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança: Herdeiro da Monarquia Brasileira

O túmulo de Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, é um dos mais relevantes do Cemitério da Consolação. Tetraneto de Dom Pedro I, Dom Luiz liderou o movimento monárquico brasileiro por mais de quatro décadas, defendendo a restauração da monarquia. Em 1987, teve papel crucial na revogação da cláusula que restringia a atuação política dos monarquistas. Viajou pelo Brasil e pelo mundo representando a Casa Imperial até seu falecimento em julho de 2022.

A Arte Tumular no Cemitério da Consolação

O Cemitério da Consolação é um dos maiores exemplos de arte tumular no Brasil, reunindo esculturas, mausoléus e jazigos que impressionam por sua riqueza de detalhes e simbolismo. Muitas dessas obras foram criadas por renomados artistas brasileiros e europeus, transformando o cemitério em um verdadeiro museu a céu aberto.

Anjos e Alegorias no Cemitério da Consolação

Entre as esculturas mais marcantes, há uma grande presença de anjos nos jazigos, representando mensageiros de Deus e a ascensão da alma.

Outro destaque é o jazigo da família Sestini, onde está representada a alegoria do Juízo Final. Criada pelo artista brasileiro Francisco Franceschi, a escultura em mármore de Carrara, trazido de Lucca, na Itália, retrata um anjo tocando trombeta para anunciar o fim dos tempos. O globo esculpido simboliza o universo.

Jazigos de Famílias Libanesas e Italianas

A presença de famílias de origem libanesa e italiana é notável na arte tumular do cemitério. A prosperidade desses imigrantes está refletida na opulência de muitos túmulos.

Um exemplo é o jazigo da família Chedid Jafet, fundadora do Hospital Sírio-Libanês. A obra, do escultor espanhol Rafael Galvez, retrata uma mulher ascendendo ao céu, emergindo do sepulcro.

Outro jazigo de destaque é o do promotor público Cerqueira César, importado da Alemanha. A estrutura inclui uma coluna decorada com elementos que remetem aos rituais de queima de cinzas. A obra, em granito Itaquera, granito rosa e mármore, apresenta ornamentos em bronze e uma estátua de anjo em prantos.

Obras Modernistas de Antelo Del Debbio

O escultor Antelo Del Debbio teve grande influência na arte tumular do Cemitério da Consolação, sendo responsável por diversas sepulturas entre as décadas de 1920 e 1950.

Um dos exemplos é o jazigo de Miguel Calfat, que apresenta uma escultura modernista de uma Pietà reinterpretada. Del Debbio também assinou a obra “A Caridade Amparando a Pobreza”, que decora outro túmulo da família Calfat e inclui símbolos farmacêuticos e da divindade Mercúrio.

Outro túmulo significativo é o da família Maluf, onde estão sepultados Chafic Maluf, Fauzi Maluf, Rose Farah Maluf, Alexandre Issa Maluf e Alice Maluf.

“O Sepultamento”, de Victor Brecheret

Entre as obras mais notáveis do cemitério está “O Sepultamento”, do escultor Victor Brecheret. A escultura, produzida em granito, mede 2,26 metros de comprimento por 3,6 metros de altura e representa uma Pietà acompanhada por quatro figuras femininas em expressões de luto.

A obra foi encomendada para a lápide de Olívia Penteado, influente mecenas das artes em São Paulo no início do século XX.

Mausoléus e Arquitetura Tumular

Os mausoléus do Cemitério da Consolação se destacam pela grandiosidade. Muitos escultores brasileiros estudaram na Europa e trouxeram influências clássicas e modernistas para suas obras tumulares.

Um exemplo é o mausoléu da família Matarazzo, o maior da América Latina. Projetado por Enrico Luigi Brizzolara, possui 150 metros quadrados e 20 metros de altura, com esculturas em mármore rosso de Verona e portas de bronze com cruz celta.

Outra construção impressionante é o mausoléu da família Siniscalchi, inspirado nas igrejas góticas da Itália. A obra foi realizada pela marmoraria Savoia.

O escultor Materno Giribaldi também deixou sua marca no cemitério, sendo responsável por diversas sepulturas. Em uma de suas criações, um homem e uma mulher seguram uma pira simbolizando o fogo da vida, enquanto a porta da estrutura apresenta a representação de Aurora, símbolo cristão de renascimento e esperança.

Deixe uma resposta